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Tocar guitarra e ser um guitarrista …

“Um guitarrista já nasce guitarrista. 
Os  professores só vão mostrando o caminho das pedras…”.

No tempo em que comecei a estudar guitarra, nos idos de 80 e poucos (he he), a situação era bem diferente da de hoje, obviamente.
Não havia internet, não havia Cifra Club, não havia Youtube, onde você faz uma pesquisa e rapidamente pode ver um guitarrista tocando. Enfim, pode ver uma pessoa empunhando uma guitarra. Hoje você pode assistir a vídeo-aulas gratuitamente on-line e assim aprender rapidamente o que os guitarristas da minha geração levavam anos muitas vezes para descobrir.
Por quê levávamos anos?
Ora, a falta de informação e de material era um grande obstáculo.
Além da ausência da internet, não haviam books, as video-aulas eram raras ou inexistentes, os professores nem sempre bem preparados para ensinar as técnicas próprias da guitarra elétrica.

Até comprar uma guitarra boa era uma situação de extrema dificuldade muitas vezes. Comprei minha primeira guitarra na adolescência. Foi uma Gianinni Sonic, a última da vitrine da loja. Tava bem judiada e por isso consegui um preço bom (tinha que ser: a grana era curtíssima…he he). Consegui comprar através de um trabalho por 3 meses em uma lan house (na época chamava fliperama). Arranjei o tal emprego apenas com o intuito de saldar o pagamento desse meu primeiro instrumento.
As guitarras nacionais feitas em série não tinham a qualidade de acabamento, madeira e captação que possuem hoje. Era uma época em que o Tagima ainda só fazia guitarras por encomenda, ou seja, conseguir algo de qualidade boa ou razoável pelo menos no Brasil era muito caro e raro. Produtos importados então nem se fala. Eram praticamente inexistentes.

E como os guitarristas dessa época aprendiam a tocar então?
Resposta: apenas utilizando o famoso “ouvidão“. É meu amigo…! Non era facile…
Colocávamos o aparelho de som pra tocar uma música ou um solo e tínhamos apenas o ouvido pra tentar entender e sentir as técnicas que estavam sendo usadas nas gravações pelos guitarristas das bandas profissionais.
De vez em quando passava um clipe de música ou outro com alguém tocando guitarra na TV (não existia MTV, Vh1, etc.), aí a gente tinha que correr pra assistir porque era a oportunidade de poder observar um guitarrista de verdade tocando e quem sabe aprender alguma coisa nova ou o que o cara estava fazendo na gravação original.
Muitas vezes os solos eram complicados para um iniciante e descobrir técnicas novas era como encontrar um tesouro escondido pelo Barba Negra… Eram descobertas empolgantes, mas por vezes demoradas.

Hoje em dia vejo alguns gurís que mal aprenderam a usar o toalete direito tocando bem pra caramba no Youtube e penso: “muitas dessas crianças no meu tempo iriam no máximo assistir o Bozo ou pedir pros pais comprarem o LP ou a fita k7 da Xuxa…”. Se você não tivesse força de vontade e algum talento dificilmente conseguiria chegar a uma boa técnica. Não que seja meu caso, mas sempre tive muito interesse em aprender tocar, então nunca desisti.
Mas hoje em dia esse quadro mudou. Centenas de crianças na primeira infância detonando na guitarra e sendo acessadas por milhares de visitas em sites de divulgação. Provavelmente graças ao advento da internet e da inclusão digital.

Outro grande passo para minha evolução foi a conquista de um vídeo cassete. Parece besteira não é? Mas ter um vídeo cassete não era nada comum no final dos anos 80 e eu só consegui adquirir um nos anos 90… (misericórdia!).
Então, pude deixar de tentar absorver meu aprendizado na guitarra apenas pelo ouvido e pude assim ver os guitarristas tocando em shows de fita VHS.
Além disso, video-aulas já estavam disponíveis no início dos anos 90, só que encontrar esse material não era uma tarefa tão fácil. Não era algo que tinha em qualquer esquina. No boca-a-boca descobríamos quem tinha algum material de estudo e assim íamos trocando material entre os guitarristas para conseguir coisas novas. Um camarada que proporcionou essa troca pra mim foi o Théo Machado, através de outro amigo guitarrista Marcus Cabral. Hoje o Théo é um grande guitarrista e na época também passou por essa escassez de fontes.
Quem passou por esse processo sabe o quão difícil era ter acesso a materiais de música e guitarra.

Por esse motivo, outro dia critiquei as pessoas que negativavam um vídeo de um guitarrista do Cifra Club que têm video-aulas sobre guitarra no Youtube.
Eu estava procurando um vídeo que ensinasse a tocar a música Smoke on the water pra passar pra um menino que me pediu e me deparei com a video-aula desse guitarrista do Cifra Club ensinando a tocar. Achei legal e resolvi passar o link pro menino que havia me pedido. Quando baixo a página, tinham alguns “não gostei“!, sem motivo algum ao meu ver! O rapaz ensina direitinho.
Poxa, hoje em dia a molecada têm tudo fácil e de graça e ainda reclamam! Óbvio que respeito a opinião de todos, mas faça-me o favor né…se não gosta simplesmente feche a página. Quem me dera eu tivesse tido alguém que me ensinasse quando estava aprendendo. Se eu tivesse o que esses jovens possuem hoje eu estaria era agradecendo a Deus todo dia, e não negativando uma pessoa que fez uma vídeo-aula, a qual NÓS como consumidores dessa vídeo-aula não pagamos NADA para assistir. Aí vem um e fala: “”ah, mas eles ganham do Cifra Club pra fazer a vídeo-aula…”. Ué, maravilha! Que bom que ganham!
A questão é que VOCÊ não paga nada pra ver e aprender, e ainda reclama?!
Essas pessoas não sabem a dificuldade que é a verdadeira falta de informação.

O gosto por tocar guitarra é algo que brota na alma. A pessoa que se sente atraída por ser guitarrista, na minha opinião, possui um certo instinto musical que é despertado quando entra em contato e entende a filosofia da guitarra, que é a liberdade de interação com o instrumento. Prova disso é a liberdade de escolha livre de: como se deve segurar a palheta, qual timbre mais agrada cada guitarrista, como posicionar a guitarra em seu corpo, etc. Óbvio que cada um vai descobrindo como melhor adaptar as técnica existentes ao seu estilo e como tirar o melhor som de seu instrumento, mas toda essa adaptação é feita com características e toques pessoais. Além disso novas técnicas vão aparecendo ao longo dos anos, mais uma prova da liberdade e versatilidade da guitarra.

É como Mozart Mello comentou uma vez. Não me lembro exatamente as palavras, mas a idéia era mais ou menos essa: “Um guitarrista já nasce guitarrista. Os  professores só vão mostrando o caminho das pedras…”.

E atualmente em nossos dias a quantidade de mapas para descobrir esse caminho é enorme. Bem diferente do meu tempo e do tempo daqueles que me influenciaram. É lógico que um guia na caça ao tesouro ainda é essencial. Um bom professor hoje em dia pode e muito orientar a seguir o melhor caminho dentre esses inúmeros mapas que muitas vezes dão voltas em um mesmo lugar e o conquistador guitarrístico pode acabar por se perder algumas vezes.

Mas sem dúvida o tesouro não é criado, ele já existe, já nasceu com você. Cabe a cada um de nós escolher como encontrá-lo.

 

evaldo-devellis-guitarrista ( Evaldo Devellis é guitarrista e compositor. Sua músicas instrumentais de guitarra podem ser ouvidas no site oGuitarrista.com e no site do MySpace.com. Também escreve regularmente em seu blog oGuitarrista.com/blog )

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Evaldo Devellis - Guitarrista há 30 anos, foi autodidata em violão e guitarra. Posteriormente estudou com Faíska e Giácomo Bartoloni. Também cursou o Conservatório Souza Lima, Voice e IGT.

6 Comments

  1. toco faz 2 anos e concordo, precisamos valorizar o material que as pessoas colocam pra ajudar

  2. Pingback: Beto Guitar
    • What an awesome show!! Thanks to all who gave my duhagter the rave reviews and encouragement!! Only just beginning in the biz but on her way. . .about to launch cakeFacemakeup.com. . she was the young, pale, ruby redhead. .and hugs and kisses to Michael!!!

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